A teoria economia clássica releva o papel da mudança tecnológica no acentuar das diferenças salariais entre trabalhadores. Tradicionalmente, os trabalhadores altamente qualificados são os maiores beneficiários da introdução de novas tecnologias, as quais são vistas frequentemente como sendo complementares do respetivo trabalho. Por sua vez, os trabalhadores com baixas qualificações correm maior risco de serem substituídos por essas mesmas tecnologias. Este fenómeno traduz-se depois numa procura crescente de trabalhadores altamente qualificados, daí o termo mudança tecnológica enviesada pelas competências. Neste modelo, assume-se que a tecnologia tem um impacto homogéneo na estrutura do mercado de trabalho, aumentando artificialmente a procura por trabalhadores altamente qualificados.
Nos termos da abordagem com enviesamento pelas competências, foi proposta uma perspetiva nova e mais refinada para explicar o impacto da mudança tecnológica no mercado de trabalho, com um enfoque particular na informatização. Esta nova perspetiva centra-se principalmente no modo como a tecnologia determina em que medida as tarefas de produção são atribuídas ao fator capital-trabalho. Os proponentes desta abordagem defendem, no essencial, que a digitalização passa pela reafetação de um conjunto de tarefas, geralmente caracterizado por níveis elevados de rotina, do fator capital-trabalho à tecnologia digital, daí o termo mudança tecnológica enviesada pelas rotinas. De referir, a este respeito, que o nível de rotinização do trabalho se sobrepõe às competências, em matéria de avaliação do potencial para a automatização digital.
As duas abordagens descritas acima repercutem os resultados da pesquisa em que o presente artigo se baseia. Os dados vêm demonstrar uma digitalização enviesada pelas competências da força de trabalho em Portugal. Existe uma relação claramente positiva entre as competências ocupacionais e o respetivo nível de digitalização, ou seja, as profissões com nível de qualificação superior apresentam um maior nível de digitalização. No entanto, os investigadores também evidenciaram que as profissões caracterizadas pelo baixo nível de qualificação dos trabalhadores não estão necessariamente associadas a um maior risco de automatização digital. Isto é importante tendo em conta que a automatização digital foi uma das principais preocupações levantadas pelos investigadores e legisladores em termos de análise do risco potencial de destruição do emprego pela digitalização. Contudo, uma primeira leitura dos dados sugere que a maioria das profissões em Portugal ainda é caracterizada pelo baixo risco de automatização digital, e, nessa medida, por um baixo risco de substituição do posto de trabalho. No entanto, tal poderá indiciar que as tarefas ainda se caracterizam por um baixo nível de digitalização ou rotinização. Além disso, e de forma talvez ainda mais surpreendente, as profissões com o maior risco de automatização digital são, de facto, profissões com nível de qualificação médio e alto: técnicos e trabalhadores do apoio administrativo, respetivamente.
Em 2021, os técnicos e os trabalhadores do apoio administrativo representavam cerca de 21,9% dos trabalhadores, em Portugal. Por isso, subsiste ainda a preocupação com o elevado risco de automatização digital para estas categorias ocupacionais. Deve, porém, ter-se em consideração que estes processos não vão acontecer da noite para o dia, e que, além do mais, a digitalização não é um processo exclusivamente destrutivo. A digitalização pode, naturalmente, estar na origem da automatização de algumas tarefas, tornando determinados grupos de tarefas obsoletos. No entanto, é de esperar que venha a gerar uma procura por novas tarefas e profissões. Assim, para uma avaliação abrangente do impacto potencial da digitalização, a análise terá de ir muito para além de uma leitura técnica das profissões e tarefas e obriga a um olhar mais demorado para o contexto específico dos trabalhadores afetados por estas transformações.
A este respeito, os dados da pesquisa revelam que, não obstante uma grande maioria de inquiridos se mostrar otimista quanto ao futuro do posto de trabalho, os trabalhadores com baixo nível de qualificação mostram-se preocupados com o que um ambiente de trabalho cada vez mais mediado pela tecnologia poderá representar para eles no futuro. Isto não surpreende, tendo em conta que os trabalhadores com baixo nível de qualificações estão menos preparados para se adaptarem às mudanças nas condições laborais que ocorrem forçosamente quando a digitalização dos postos de trabalho se torna cada vez mais a regra. Se olharmos para o caso particular dos técnicos e trabalhadores do apoio administrativo em Portugal, o facto de estes trabalhadores possuírem um nível de qualificações mais elevado deve também indicar que estão mais bem preparados para lidar com as transformações provocadas pelas mudanças tecnológicas. Dada a correlação entre as competências elevadas e a digitalização, também se pode inferir que, uma vez que as tarefas destes trabalhadores são altamente mediadas pela tecnologia, estes trabalhadores estarão mais familiarizados, e, portanto, menos pessimistas, com as mudanças que a tecnologia pode representar para eles em termos profissionais. Pelo contrário, como os trabalhadores com baixo nível de qualificação interagem menos com a tecnologia, revelam maior ansiedade e suspeição face às mudanças tecnológicas.
Em conclusão, o estudo deve levar-nos a retirar algumas considerações em termos de desenvolvimento de políticas. Embora a automatização digital tenha acelerado nos últimos anos, é improvável que os seus impactos na destruição de postos de trabalho ocorram subitamente. As ocupações são constituídas por diferentes grupos de tarefas que podem ou não ser automatizadas pelos avanços tecnológicos. A substituição de postos de trabalho não depende do nível de rotinização e automatização de uma tarefa em específico, mas sim de um conjunto de tarefas, e, como tal, não é um resultado óbvio dos processos de automatização. À medida que as tarefas são substituídas pela tecnologia, novas tarefas poderão, por sua vez, ser atribuídas aos trabalhadores, caso, por exemplo, da manutenção da nova infraestrutura tecnológica. Estes processos sugerem que, à medida que se assiste ao incremento da mudança tecnológica, os trabalhadores, organizações e políticas em geral terão de se adaptar rapidamente para poderem acompanhar estes desenvolvimentos. Embora as políticas públicas devam promover condições para a atualização tecnológica das organizações, e respetiva transformação digital, devem também apoiar a inovação complementar nos processos organizacionais e a adaptação e formação do capital humano para uma melhor adaptação a mudanças tecnológicas mais amplas e correspondente base de competências. O objetivo destas políticas deverá ser a mitigação dos impactos negativos dos avanços tecnológicos no trabalho e no emprego, promovendo, ao mesmo tempo, os benefícios que decorrem deste processo. O investimento em capital humano é fundamental para equipar os trabalhadores com as ferramentas necessárias para enfrentar o progresso tecnológico. As novas competências e a atualização e a reciclagem de competências terão um papel fundamental neste empreendimento.